terça-feira, 2 de abril de 2013

Roscas à parte!

Um alicate saltou da caixa de ferramentas!
Olhou para os parafusos espalhados pelo chão e gritou-lhes: Mas que balburdia é esta?
Os parafusos colocaram se logo em sentido, alinharam as roscas e perfilaram-se por tamanho e tipo... Todos menos um!
Franziu a fenda e gritou: Ouve lá Alicate! Tu não tens poder sobre nós! Só respondemos as ordens da velha chave de fenda! Não de Ti...
Um outro parafuso, alinhado, mas perto do parafuso insolente, sussurrou-lhe :
És louco!!! a falar assim com o alicate? queres que ele te aperte e entorte, ou pior que te corte...
Olhava altivo o alicate, preparava-se para falar quando por trás dele apareceu a velha chave de fenda...
O alicate cedeu-lhe o lugar, este tomando o palanque disse: Ora bem. Vamos proceder a substituição de uma viga de madeira que sustenta um telhado... Quero-te a ti parafuso resmungão! Mais onze voluntários! Parafusos! Saibam que este é um trabalho de extrema responsabilidade! E que muita coisa, pode acontecer...
Lá foram todos para a sacola de trabalho, o alicate, a velha chave de fenda, os doze parafusos...
Dizia aqui e ali o parafuso resmungão: Voluntários, vocês são voluntários! Mas eu, não! Eu, fui escolhido para um trabalho de maior responsabilidade, a velha chave sabe o meu valor... Riam os outros parafusos, das gabarolices do parafuso.
Quando chegou o momento, a chave de fenda disse aos seus parafusos: Meus bons rapazes! Espero que compreendam a vossa função, começa hoje a vossa nova vida, conto convosco, para que sejam a garantia da sustentação deste telhado!
Após encaixes, cortes e ajustes, chegou a hora de os parafusos!
Foram sendo orgulhosamente apertados até ao ultimo chiar da madeira, finalmente chegou a vez do impaciente parafuso. A velha chave de fendas disse-lhe: Rapaz! Chegou a tua hora, esta madeira tem nós duros, difíceis de ultrapassar, é imperativo que te mantenhas firme, não cedas perante eles ou... Sim! Eu sei! Interrompeu o parafuso. Aprendi tudo que havia para aprender, Eu sei...
Colocou-se no local pretendido, a chave de fendas, engatou-se na sua cabeça fendida e enroscou e enroscou... O parafuso que sentiu um veio mais duro, achou que não precisava de se manter firme e numa torção, zás... Entortou! Ahhhh gritou o Parafuso! O que te disse rapaz! E agora... Enquanto agonizava o parafuso...
 Alicate! Chamou a velha chave de fendas! Todos os outros parafusos se arrepiaram ao ouvir aquele nome. Comentaram entre eles. Ah...vai ser cortado!
O parafuso, desanimado, entortado, chorava agora por clemencia, por favor... O Alicate aproximou-se dele e com uma voz autoritária disse: Rapaz, tudo vou fazer para te dar uma segunda oportunidade, ai de ti que depois não te mantenhas firme... e com jeito e sem pressas abocanhou o parafuso,  num movimento decidido endireitou-o!
Como vai ser agora fedelho? Disse a Velha Chave de Fenda ao parafuso que ainda soluçava por ter visto o fim tão perto...
Mas desta vez, o parafuso manteve-se firme até ao fim...
Boa rapaz! Disse a Chave de Fenda.
Ora! Devo-o ao bom Alicate! Obrigado.

Bicho


Sem pintura...

Senti!
Era forte a dor!
Uma mágoa em mim que vinha do outro lado da tenda...
Atravessei-a num só salto...
Encontrei um homem de olhar perdido, sentado na beira de um charco...
Os seus olhos choravam apesar de nenhuma lágrima escorrer deles.
Os seus olhos, variavam, entre o vazio e uma fotografia caída nos dedos...
Grunhi um som quente, acolhedor, abracei-lhe a dor, distribuía pelos dois. Atenuei-a...
Abracei-o com o som, com os braços, com o todo que sou...
Quando finalmente se deixou encostar no meu peito, gritou sem som! Senti o mundo tremer, há muito que carregava aquela dor, também o mundo aguardava a sua partilha...
E a dor que senti, atenuou novamente...
Chorou finalmente, em arco, como só ele sabe fazer, chorou até a libertação...
Alguém o chamou...
Calçou os longos sapatos, vermelho-purpura, adicionou um nariz ao seu, retocou o sorriso junto aos olhos, e entrou!
As crianças gargalharam de imediato...

Bicho

domingo, 31 de março de 2013

Nascido, não vivido!

Quando as Chuvas de Estrelas vem o que sentimos é muito forte....

Nunca vos disse, pois tal como acontece entre nós, sentimos também em vocês, Humanos, o principio da vida, não o sentimos com a mesma intensidade, mas na presença, a sensação garante-nos a certeza! A germinação no útero...

O Ibrahim já reconhece em mim quando o sinto!

Mas o que quero contar-vos é uma historia que aconteceu num longo passeio que realizei com o Ibrahim e dois amigos....

Seguíamos numa estrada com vistas longínquas, campos de trigo que se prolongavam até horizonte, oscilantes na brisa. Junto à estrada, as árvores baixas criavam janelas para os campos e ajudavam a limitar o caminho...

Num desses intervalos, surgiu uma casa térrea, caiada, com as janelas e portas fitadas em azul escuro... Pareceria uma casa normal, não fosse o caso de nas paredes, estar cheia de escritos em múltiplas cores:
 "Se seguires o sonho, segues a felicidade" ; 
"A felicidade é sermos felizes. Não é fingirmos que o somos";
 " O mal nunca está no amor"
...
 Muitas outras frases, conhecidas e desconhecidas, circundavam a casa, mas todas de inspiração para felicidade, para o amor, para a verdade!

Grunhi de imediato, assim como a Paula e o Fernando, avisando o Ibrahim do desejo de parar! Eles porque queriam tirar umas fotografias, eu pelo que senti...

O Ibrahim encostou o carro um pouco à frente, saímos. O Fernando começou logo a disparar em múltiplos ângulos à casa. Panorâmicas gerais, pormenores, a Paula a apontar  frases...

Eu, aguardava o ser que lá dentro se encontrava!

Não demorou muito...

Antes da sua visão, fez se anunciar com uma voz forte: "Entrem, entrem..." Enquanto a porta se abria..."Há mais para viver cá dentro..."
 Surgiu um Homem, velho mas de idade indeterminada, cabelos e barba longos e grisalhos, no fim desta, uma barriga nua, redonda, proeminente, saía da camisa aberta, manchada da transpiração, vinho e restos de comida... Uns calções, outrora calças, segurados por uma corda. Pés nus, largos, calçavam o pó que se acumulava...
 Tinha um aspecto um pouco assustador, para quem apenas sente e avalia pela visão...

A Fernanda correu para o Paulo, um pouco mais afastado a disparar continuas fotografias...

Quando me viu,  penteou a barba com os dedos, lançou uma grande gargalhada: "O Bicho!!! Que saudades tenho de ti!" Dei-lhe um abraço. Ao que a Paula meia espantada perguntou: Mas... Já se conheciam? Ao que o Emanuel, assim se chamava o Homem, respondeu rapidamente: "Sim, talvez não fosses tu! Olhando para mim. Mas eras o também! Certo Bicho?"

Essa frase fez o Ibrahim aproximar-se e relaxar com a situação...
Entramos!
A casa encontrava-se decorada com o entulho de muitas vidas passadas, roupas, quadros, brinquedos, móveis... Tirando a cozinha, todas as outras divisões serviam apenas de carreiro entre elas, tal era o acumular de coisas amontoadas. Contudo, conforme nos contava historias, rapidamente encontrava a peça sobre a qual recaia a historia, no meio do tudo aquilo, subia, mergulhava no emaranhado de recordações e de lá saia com a peça que tinha descrito, como se tivesse um memoria absoluta, sobre o empilhamento do vivido...

Mas o que vos quero contar desta historia, foi o que aconteceu à Paula... Enquanto esta observava uma cerâmica que se encontrava pendurada na cozinha,  aproximou do Emanuel. Ele que se encontrava a contar mais uma recordação... Parou! Virou-se para trás onde se encontrava a Paula e... Então Parabéns! Seja bem vinda a nova existência... Para ela e para o Fernando foi um momento constrangedor...
Saiu em pranto, o Fernando seguiu-a!
O Ibrahim informou que de facto ela tinha estado gravida mas tinha abortado recentemente às seis semanas,  O Emanuel levantou-se e veio cá fora falar com a Paula.

"Paula, desculpe se a magoei, não era essa a minha intenção, não me fiz compreender. Deixe-me por favor dizer-lhe, a sua condição não difere em nada das mulheres que concretizaram a gravidez, grande milagre é a geração, o que lhe aconteceu faz parte da sua condição de mulher e de mãe...
Quero que saiba que de si, nasceu um ser, mesmo que não o tenha visto viver..." 

Estava a dizer isto quando começamos a ouvir ao longe sinos...

O Emanuel, olhou profundamente nos olhos da Paula, e convidou: "Oh! seria uma honra, receber o compasso convosco em minha casa!"
O choro transformou-se num sorriso contemplativo...
Aceitamos!

Bicho

sexta-feira, 15 de março de 2013

Não o sei dizer em palavras!


Atirou com o papel entre a raiva e o desespero, saiu vociferando meias palavras...
Devia ser, para aí, a quinta vez que o fazia...
Passado uns minutos, voltava a entrar, fixava os olhos no mar, e ali se demorava...
Sentava-se novamente rabiscava qualquer coisa mas... Mal começava a escrever, emitia gritos iniciados em  surdina que se iam libertando em paralelismo com os bruscos movimentos, transpunha a raiva no papel e rasgava e amarfanhava e atirava-os sem cuidado.
Saía novamente entre palavras meias ditas, num acelerado passo, como quem pontapeia o ar...

Num desses momentos, enquanto o retorno não acontecia, não resisti, pequei num dos papeis do Ibrahim...

"Não possuo o dom!
Se eu conseguisse, transporia em palavras o sentimento, este que todos os poetas definem como indefinível, o tal que arde sem se ver, aquele cujo apenas o peito da amada acalma, aquele cuja a mera passagem cria poesia sem palavra...
Como gostaria de ter o dom, de transformar o abstracto em concreto,  definir o indefinível...
De numa orgia de palavras o alcançar,  conjugar as palavras e permitir-lhes apenas o sentimento mais belo, e ainda assim... Tão longe!
Como definir a razão da existência no sentimento que possuo!
Como criar com as palavras tal aglutinação de existência...
Sem medo...
Sem dom...
Sem palavra...
Porque existes!
Porque amo!
Sou!"

Também o sou...
Não o sei dizer em palavras!

Bicho

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Até já...

Acredito que seja desconfortável para vocês, não para todos, pois que me cruzo com alguns humanos na praia nos dias de chuva!
Num desses meus passeios, cruzei-me com um rapaz, com uma tatuagem no pé! Até já... dizia a tatuagem.
Olhava para o mar e sorria, apesar dos seus olhos tristes...
Sentei-me a seu lado, fez umas festas no meu pelo, como se faz aos cães... Eu gosto! Alguns humanos reagem como se eu fosse apenas um animal, outros apenas pelo meu lado racional. Gosto especialmente quando compreendem que apesar da minha capacidade intelectual gosto igualmente de brincar e de receber festas! Foi o caso!
Enquanto acariciava o meu dorso, perguntou: Então Bicho! Como estás?
Grunhi um bem, facilmente percepcionado pelo rapaz. Apontei-lhe para a tatuagem e vocalizei uma interrogação em grunhido...
- Sentiste-o! Não foi Bicho! Tenho um Bicho como tu por grande amigo...
Bem que me parecia que o já conhecia, já vivi partilhas com ele!
Quis reviver a historia do até já...
Estiquei-me na areia molhada, fiz um monte para elevar a cabeça, fiquei pronto para a ouvir!

- Tenho um irmão... Já não vejo a algum tempo... Por imensas vezes me disse até já!
Para ele, esta era a forma correcta de entre os homens se despedirem ou se afastarem, independentemente do tempo que intervalaria a sua ausência.
Não gostava do determinismo do Adeus, nem da casualidade do Até qualquer dia, afastava-se com a vontade do Até já...
Sempre achei aquilo curioso, via uma certa beleza naquele acto mesmo sem o compreender...
Até o dia em que a sua ausência foi certa...
Nesse dia, mesmo antes da sua ultima presença, sussurrei-lhe ao ouvido um Até já...
Aquele Até já, ficou também em mim... como se me dissesse até já a mim...
Compreendi quem sou, quem somos...
Pois que o meu irmão não estava mais ausente de mim...
Marquei o em mim, por forma a nunca esquecer, o valor do Até já...
Como símbolo da sua presença em mim.
O tempo que nos intervala a ausência é apenas um instante...
Por isso, Bicho, desde esse dia, vivo esse instante, esse renovar de Até já, até a concretização do Até já seguinte...
Levantei-me e escrevi na areia!
Acenei sorridente e continuei o meu passeio...
Gritou-me Até já para ti tb Bicho!

Bicho


quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Gota de fumo


Acordei com o Ibrahim a mexer nas gavetas do seu escritório, que por sinal, é também o meu local de repouso...
Nem me deixou terminar de grunhir, ao se aperceber que estava acordado, e mantendo-se na sua busca pelas gavetas...
Rodou o tronco e a cara para mim e com um sorriso, como quem espera uma resposta confirmativa, perguntou;
- Viste uma caixinha amarelada...  quinze centímetros por oito... tem três tubinhos... Os charutos! Viste-os?
Respondi em mímica, sem necessidade de qualquer grunhido...
Mentiria! Se eu o soubesse, se eu o conseguisse, apetecia mentir, dizer: Não, não os vi! Só para manter o suspense! Só para contrariar a certeza do sorriso! Mas apenas para o elevar à gargalhada, pois que nem a  a mentira poderia criar duvida!
- Espero que haja pelo menos um para o fumar... A ler!
E abriu repetidamente os olhos em movimentos de convite.
Dois dedos levantei rapidamente, enquanto espetei a face de alegria, confirmando a imediata combinação!
O Ibrahim preparou a musica.
Eu fui directo à gaveta onde se encontrava a caixa dos charutos! Não fui eu que os pus lá! Mas o Ibrahim  tinha mo dito, no caso de não se recordar...
Sentamo-nos na varanda marquisada ..
A musica começou, um lamento de Charles Mingus,  não é um lamento de tristeza... Soa mais a uma constatação da existência... Dissonâncias que se encontram...
Coloquei o teclado na minha frente, o ecrã na frente da cadeira do Ibrahim... *
Distribuímos as mantas, sentados e aquecidos e uma parede de vidro com vista para o horizonte, o momento começou a compor-se...
Dei-lhe um tubo metálico enquanto desenroscava o meu.
Passou-me a guilhotina, enquanto executava o corte, já o Ibrahim acendia um grande fosforo...
Os Edmundos fumavam...
Estamos prontos...
Comecei a escrever:
"Não te recordas!
Foi exactamente numa tarde igual a esta...
Talvez com a mesma chuva...
Exactamente o mesmo quadro!
Foi aqui...
Que as gaivotas, de igual porte, contrariaram o vento em voos errantes...
Foi aqui...
Tal como agora, que nos sustivemos pelo prazer da observação das coisas simples...
Foi aqui...
Que duvidamos da razão e colocamos a duvida na inebriação de uma fumaça asfixiante...
Foi aqui...
Que as gotas de água, escorridas do céu, aplaudiam sonoramente cada concretização do seu fim....
Foi aqui...
Que uniram carreiros como revoltos rios, uniram elementos, criaram pequenas ilhas de vida, fixaram, uniram e sustentam...
Foi aqui... Tal como hoje, que sentiste em ti a ausência da razão e passaste o seu limite...
Que te sentiste uma gota de agua, uma gaivota, um resíduo, um mar, uma planta, um ser...
Sentiste toda a força do universo, apenas com parte do visível...
Sentiste a ligação que comigo tens.
Sentiste eu e tu, sentimos, mas sem plural, juntos mas um só!
Nós... As gotas,os sons, as gaivotas, a musica, a vida, o fumo...
Esse momento em que tu e eu,  fumávamos um charuto do vingativo conde, nunca é uma recordação..."
Puxou-me o teclado e escreveu, ..apenas o é...  partir daqui seguiu o Ibrahim...

Bicho

* Já temos uma maquina, ainda em fase experimental, que me permite falar... Mas há momentos!

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Finalmente nasci!

Não sei se era um homem ou uma mera sombra....
Se fosse um homem era alto... Pela capa negra que trazia, tinha ombros finos...  
O seu corpo era torcido, como a sombra de uma árvore vergada ao vento, a sua copa um chapéu, preto de abas lisas...
Desenhava movimentos lentos, como se de uma dança se tratasse, as pernas flectiam permitindo aos braços descrever traços impostos por outras regras que não as da dança...
Na mão direita erguia um carvão e tornava em preto linhas onde a luz clareava a parede...  A esquerda erguia-se no ar, imitando talvez, os movimentos da sua irmã.
A totalidade do movimento iludia quem o via, meio escritor, meio maestro, surgia a duvida! Passo para cá, passo para lá e os braços criavam movimentos ritmados como quem dirige à velocidade da palavra...

Eu e outro Bicho, alternávamos a observação, entre essa sombra que freneticamente escrevia e a eclosão eminente de alguns ovos de coruja. Carinhosamente colocados numa reentrância de um penedo que dominava a vista de todo o parque.
A fêmea já tinha partido e o macho tomava agora o seu lugar, cuidar e alimentar as suas crias até o primeiro voo.
O seu grande olho esquerdo aproximava-se de nós enquanto com o direito apercebia-se do movimento nos seus ovos. Nervoso e apreensivo, como qualquer pai!
Percebendo a iminência e a segurança que a nossa presença representava, pediu delicadamente, e voou na esperança que no fim deste, encontrasse bicos famintos. Razão do seu voo!

Alguns ovos começaram  a eclodir. Um a um,  apareciam pequenas fissuras resultantes da força do bico, e quando a matéria solida soltava, observava-se a existência de vida empurrando a membrana mais flexível, e depois pequenos bicos, erguiam-se para alem da casca, até que a abertura desta permitia a separação total... É algo muito belo de se observar... Melados, de aspecto húmido, procuravam encontrar a sustentação, enquanto o nascimento de outros os obrigava a um permanente ajustamento, entre o equilíbrio das patas, e a fricção que os aquece...
O macho esvoaçou perto.
Achamos que agora, deveriam ficar sós, em família, enquanto voava os arredores, como faz um pai, garantindo que a segurança dos filhos não sofre ameaças, saltamos em direcção ao  muro...
Pareceu-nos ver uma sombra dissipar como faz o fumo sem direcção levado por um deus do vento...

No muro estava escrito :

"Morri assim!
Numa noite de estrelas, sem cometas a anunciar...
Sem que o som das trombetas me acompanhasse,
Não ascendi, nem vi caminho...
Mas sou mais do que era, em mim o mundo entrou, e vejo as casas, e os rios, e os mares, as montanhas, e vejo para além das coisas intransponíveis... Vejo para além do impossível, vejo o vazio que intervala os mundos, e as estrelas que os aquecem,  o que foi e o que há de vir, o que nunca foi, o que sempre será...
Deixei de ser quem era...
Finalmente nasci!
Hoje sou parte de tudo e em tudo tenho parte.
Sendo quem fui, hoje sou."

O Corujo encontrou sete bicos sibilantes, todos eles com vontade de viver.
Eram oito ovos mas um... Nasceu hoje!

Bicho